Rosa Gauditano é uma fotógrafa brasileira que sempre soube usar suas imagens em favor das minorias. A causa indígena é prioritária nas suas ações e projetos. Mas desta vez, além das imagens, Rosa nos impacta também com os números da pandemia nas comunidades indígenas brasileiras.  Grito de urgência para salvar do genocídio os povos da Amazônia e de todas as terras indígenas do Brasil

Indígenas brasileiros pedem ajuda contra Covid-19

Por Rosa Gauditano.

Atualmente, existem 305 tribos indígenas no Brasil, compostas por cerca de 900 mil pessoas que falam 274 idiomas diferentes.
A pandemia de covid-19 já atingiu 113 povos indígenas, segundo a Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Em 3 de julho, 10.373 pessoas foram infectadas e 412 morreram.

O epicentro da epidemia está na região Amazônica, onde 104 profissionais de saúde indígenas foram infectados com a covid-19, incluindo 76 nas terras indígenas Yanomami e 28 no estado Amazônico. Na tribo Kokama, no Alto Solimões, 52 pessoas morreram.

No estado de Roraima, após a morte de um índio Yanomami em abril, a Associação Hutukara Yanomami decidiu que eles deveriam se mudar para a floresta para escapar da contaminação. Apesar disso, outros 4 Yanomami morreram e 168 estão infectados, dos quais 48% contraíram o vírus na Casa de Saúde Indígena, na capital Boa Vista, e 24 na TI Yanomami. As terras dos Yanomami foram invadidas por mais de 20 mil garimpeiros. O povo Yanomami começou uma campanha mundial #ForaGarimpoForaCovid para pressionar o governo brasileiro a expulsar os garimpeiros das suas terras.

Segundo a Survival International, os “Arara”, nativos da terra natal de Cachoeira Seca, no Pará, atualmente possuem a maior taxa de contaminação por Covid-19 na Amazônia brasileira. Segundo o Distrito Especial de Saúde Indígena, 46% dos 121 nativos contatados em 1981 estão infectados. Esta terra nativa é uma das mais invadidas por madeireiros e ladrões de terras, os “grileiros”.

A Coordenação de Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab Amazônia) anunciou que as Associações Kanamari do vale Javari e a Associação de Matsés do alto Jaquirama enviaram uma carta às autoridades para denunciar e solicitar uma investigação sobre a proliferação de covid-19 pelo exército brasileiro e pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) no território indígena do vale do Javari, na fronteira do Peru e Colômbia, em particular no canal Médio Rio Javari. Esta região tem 6.000 indígenas contatados e 16 povos isolados.

Povos indígenas em risco.

O site de notícias da Intercept mostrou um vídeo publicado em abril e distribuído a soldados e civis no qual o general do exército brasileiro Antônio Manuel de Barros, 57 anos, disse a seus comandos que procurassem se contaminar, incentivando o aparecimento de coronavírus para “imunizar as tropas” que trabalham em abrigos para refugiados na Venezuela, na fronteira do estado de Roraima. Os militares já representavam 26% dos casos de covid-19 no estado. O general Barros é o comandante militar da Operação Recepção e substituiu o general Eduardo Pazuello, atualmente ministro da Saúde em exercício.

Na última coletiva de imprensa do governo federal sobre a covid-19, o diretor da Secretaria Especial de Saúde Indígena, Robson Santos, indicou que a Operação Acolhida está em andamento nos dois distritos de Yanomami. e leste de Roraima. ”

Em Manaus, capital do estado do Amazonas, o Distrito Especial de Saúde para Povos Indígenas (DSEI) confirmou que muitos pacientes indígenas que estavam sendo tratados por outras doenças foram infectados no centro de saúde e nos hospitais. estadual e municipal, depois retornaram às suas aldeias.

Os hospitais da cidade de Manaus estavam em plena capacidade e agora a situação é ainda mais crítica fora da capital. O único hospital com uma unidade de terapia intensiva (UIT) fora de Manaus fica na cidade de Tefé, a cerca de 522 km da capital.

A segunda região do Brasil mais afetada pela covid-19 é o nordeste / Minas Gerais / Espírito Santo, onde as populações indígenas vivem em áreas muito pobres. Até agora, 52 pessoas morreram nesta região.

As populações indígenas do Brasil nunca foram tão organizadas.

O Brasil possui 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas  (DSEI). Eles são responsáveis ​​pelos cuidados de saúde das pessoas que vivem em aldeias indígenas. No entanto, 36% dos indígenas do Brasil vivem em áreas urbanas e não são de responsabilidade ​​dos DSEIs, mas sim do SUS, o Sistema de Saúde Brasileiro, onde geralmente são vítimas de discriminação.

A Fundação Nacional Indígena (FUNAI) não está funcionando como deveria. Atualmente, é chefiado pelo ex-chefe de polícia Marcelo Xavier, assessor do grupo parlamentar representante do agronegócio,  no inquérito parlamentar ao INCRA (1) e Funai (2).

Marcelo Xavier, quando questionado sobre o que a FUNAIL faz para defender os Yanomami contra garimpeiros em suas terras, explicou que ela monitorava a mineração com 28 barreiras sanitárias, em vez de remover os mineiros das terras dos Yanomami e defender os povos indígenas.

O fracasso do governo Bolsonaro em combater a pandemia de coronavírus está afetando os povos indígenas em todas as regiões, agravando uma situação já terrível. No ano passado, 150 territórios indígenas foram invadidos por grileiros, madeireiros e garimpeiros,  instigados pela linha diretiva do governo federal. Eles queimam florestas e assassinam líderes indígenas. Além disso, o governo federal apóia a conversão dos nativos ao cristianismo pelos missionários evangélicos.

Há alguns dias, os brasileiros puderam assistir perplexos, a um vídeo divulgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que mostra uma reunião entre o presidente Bolsonaro e seus ministros. No vídeo, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que odiava os povos indígenas, enquanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, falou em aproveitar esse período da pandemia de coronavírus para aprovar reformas de desregulamentação, simplificam regras e modificam as leis ambientais em benefício dos setores mais poderosos.

Em maio, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou o projeto de lei PL2633, que estabelece o chamado “Marco Temporal” (3), limitando as reivindicações dos nativos e suas demandas históricas por terras. O parecer 001/2017 da Procuradoria Geral da República (AGU) é inconstitucional e é utilizado para legalizar invasões, legitimar despejos e ocultar atos de violência contra povos indígenas antes da promulgação da Constituição Federal de 1988. Se a decisão for contra os povos indígenas, o Brasil e o meio ambiente global serão diretamente afetados.

O juiz Edson Fachin adiou a votação devido à pandemia, após pressão de povos indígenas e organizações de direitos humanos, até que o tribunal possa julgar pessoalmente.

Apesar de tudo isso, as populações indígenas do Brasil nunca foram tão organizadas. Este mês, a APIB organizou on-line uma grande assembléia nacional de resistência indígena para abordar questões como o diagnóstico regional de Covid-19 nas aldeias.

Os povos indígenas estão acostumados a lutar por seus direitos há 520 anos e estão unidos em encontrar novas maneiras de exigir melhores cuidados de saúde e defender suas terras e o meio ambiente

(1) INCRA: Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(2) Em 2017, o inquérito parlamentar presidido pelo Farmers ‘Caucus teve como objetivo processar antropólogos, nativos, funcionários públicos e membros executivos da FUNAI e INCRA, além de ONGs. A idéia era encerrar a Funai, interromper a reforma agrária e alterar os critérios de demarcação de terras para povos indígenas e antigas comunidades de escravos (quilombos).
(3) “Marco Temporal”: prazo. A idéia deste projeto de lei é estabelecer que as reivindicações de terras indígenas só seriam reconhecidas por lei se os povos indígenas ocupassem essa parcela específica de terra em 1988, ano em que a atual Constituição Brasileira foi estabelecida.

Por Rosa Gauditano

email: studior@studiorimagens.com.br

Fotógrafa Ros GauditanoRosa Gauditano é uma fotógrafa, jornalista e ativista. Por mais de 30 anos, ela documenta a vida de povos indígenas de várias etnias e as mais diversas regiões do Brasil. Rosa já documentou as etnias Karajá, Kayapó, Tucano, Waurá, Yanomami, Xavante, Guarani e Pankarau. Em 2004, em parceria com o grupo étnico Xavante, criou a Nossa Tribo, uma ONG cujo objetivo é construir uma ponte entre cidades e vilas indígenas. Ensinou fotografia na PUC (Universidade Católica de São Paulo) e trabalhou no jornal Folha de São Paulo e Veja. É autora dos seguintes livros: Índios, Os Primeiros Habitantes, Raízes do Povo Xavante, Festas de Fé, Guarani M’Byá na Cidade de São Paulo e Povos Indígenas no Brasil.